A Cor Dada
Ella, em sobressalto desperta.
O coração bate tão forte que é possível ver a blusa do pijama pulsar.
Com a respiração ofegante permanece deitada olhando para o teto. Tentando recuperar o fôlego acende a luz do quarto silencioso, paredes cinzas, decoração sofisticada, percorre cada centímetro do lugar que mais parece uma caixa fechada e fria, o relógio da parede marca 12:12, a cortina da janela não permite ver se é noite ou dia. Ella procura o celular que está debaixo do travesseiro, estranhamente no aparelho a hora está diferente do relógio, 8:18 e nada faz sentido, a data 11/11/2015.
Atordoada, Ella fica em pé, mas precisa sentar-se novamente porque está tonta e as pernas trêmulas. Sentada na beirada da cama, estica o braço e alcança o controle da televisão que está em cima do móvel de madeira de carvalho, a fisionomia atordoada dela se confunde com a do repórter que em meio a um protesto entrevista uma mulher segurando um cartaz com a frase “Seu machismo me mata” e a hashtag chega de silêncio. Ao conferir pela segunda vez a data no rodapé do telejornal matinal, Ella sente o corpo dormente e deixa o controle cair, as pilhas rolam lentamente para debaixo da cama. Ajoelhada tentando pegar as pilhas, desaba em um choro descontrolado.
- Será que enlouqueci?
Percebe que o medo foi o seu despertador naquela manhã. Despertou a dor. A dor lhe acordou.
- Como isso é possível? - Continua questionando, enquanto encara a tela da TV e acompanha as notícias do dia, sim, quarta-feira, 11 de novembro de 2015. Mas a sua última lembrança de estar acordada é do ano de 2002, era uma noite fria, sentada no chão da sala, com uma taça de vinho em cima da mesa de centro, assistindo a novela “O Clone”, embrulhava pratos em um jornal que estampava a foto do Cafú segurando a taça da Copa do Mundo. Então como é possível ter acordado em 2015?
Ella levanta com dificuldade e vai até o banheiro. Lava o rosto e encara o espelho e não se reconhece no reflexo. Está envelhecida, tem rugas e cicatrizes que não sabe de onde vieram e nem quando surgiram. Ella fita a menina dos olhos, que parece estar sedenta e faminta de vida, e como uma esfinge desafia: decifra-me ou te devoro. Em uma conversa franca diante do espelho, percebe que a menina foi privada por muito tempo de ver a beleza, as delicadezas, as cores...
No banho tenta recapitular os últimos dias, mas nada que indique o que está acontecendo. Uma dor lancinante lhe atravessa o peito, e percebe que alguma coisa precisa ser feita para compreender o que está acontecendo.
Diante do armário não se sente confortável em nenhuma roupa, todas pretas ou brancas. E os sapatos? Todos apertam os pés. Todos, sem exceção, são um número menor do que costumava usar. Escolhe então qualquer um e decide sair. Ver em que mundo acordou.
Ao chegar na cozinha do apartamento, encontra o marido preparando o café.
- Bom dia! - ele diz enquanto despeja a água fervendo no coador.
Ella tenta responder, mas a voz não sai, nem mesmo quando é questionada se quer café. Ele sem notar a ausência de resposta, coloca a caneca diante dela que se ajeita na cadeira.
- Que cara é essa? Acordou de mau humor? Tomou o remédio ontem? Não vi a hora que você foi dormir… - as frases são disparadas sem dar tempo que Ella formule qualquer resposta. Ele não demonstra nenhuma surpresa com aparência envelhecida dela e isso torna tudo mais estranho.
- Que dia é hoje? - Ella finalmente consegue verbalizar.
- Quarta-feira. Por que, esqueceu que ontem fomos na reunião da igreja?
- Quarta? Mas que dia do mês? Que ano?
- Oi? - ele responde enquanto coloca a caneca dentro da pia.
- Que dia?! Que ano estamos? - Ella grita.
- Onze de novembro de dois mil e quinze. Por quê? Você está falando sério, esqueceu mesmo?
-Hoje é meu aniversário. - Ella murmura.
- Ih é mesmo! Parabéns!! Está ficando velha, hein? - ele dá um beijo na testa dela.
O contato com ele, faz com que Ella sinta um desconforto ainda maior e por isso o afasta.
- Ella, não estou entendendo nada. O que está acontecendo? É crise de idade ou você está desse jeito porque esqueci seu aniversário?
- Esqueceu de novo, você quer dizer… - do que Ella recordava da vida, uma coisa era certa, desde que namoravam ele nunca lembrava do seu aniversário. Até mesmo quando ela passava a semana toda falando no assunto e fazendo planos, ele parecia ter um prazer sórdido em não lembrar no dia, para fazer com que ela se sentisse desimportante.
- Ah então é isso! Para de drama! Você é muito sensível, sabe que eu não ligo para essas coisas, nem do meu aniversário eu lembro, você sabe que sou assim!
- Você acha que eu enlouqueci? - Ella pergunta olhando para cima, buscando na resposta dele qualquer coisa que faça sentindo.
- Bem, normal você nunca foi, né?
- Estou falando sério! Como hoje pode ser um dia de 2015, se me lembro de ter ido dormir em um dia de 2002? Quando estávamos arrumando a mudança para Brasília. O que aconteceu? Lembro de que estava arrasada porque eu não queria ir, mas você insistiu, disse que aquele emprego era importante para você, que valeria a pena eu largar o meu trabalho, me afastar da minha família e dos meus amigos. Me recordo da discussão que tivemos, eu disse que não queria ir, mas você bateu o martelo, era a mudança ou o divórcio.
- Ai Caramba! É sério isso? Como assim, 2002? Você não lembra de mais nada?
- Não!
- Isso é impossível! Liga agora para sua terapeuta, vê se ela pode te atender, te deixo lá no caminho para o trabalho. Vou acordar as crianças e ver se a minha mãe pode ficar com elas.
- Crianças? Que crianças?? - Ella pergunta enquanto procura por psicanalista na agenda.
- Nossos filhos, Ella! Pelo amor de Deus, você está me assustando!
- Mas eu nunca quis ter filhos! Como podemos ter dois?
Sentada na recepção, Ella observa tudo, as cores das flores pintadas no quadro chamam atenção, a estante elegante repleta de livros, separados por temas: Arte Contemporânea, História da Psicanálise e Poemas, entre esses, um salta aos olhos, um exemplar envelhecido da Antologia Poética de Fernando Pessoa. Ella folheia as páginas amareladas, na contracapa, uma dedicatória escrita em caneta tinta preta “Para a menina de alma bonita, que tem sede do belo, fome de amor e saudade do intenso.” O livro é tão antigo que algumas páginas estão soltas e possuem anotações a lápis, na página 11 um circulo em volta do título, Tabacaria. Com os olhos grudados nos versos, as lágrimas molham as palavras e como se rezasse baixinho, Ella repete as palavras do poeta:
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Ella respira fundo, pela primeira vez naquele dia, algo faz sentido. Antes que possa colocar o livro no lugar, a porta abre e a psicanalista sorrindo exclama:
- Bom dia, Ella! Pelo que seu marido me explicou ao telefone, finalmente aconteceu! Bem vinda de volta! Vamos entrar?
Ella segue com o livro nas mãos apertando contra o peito, enquanto caminha em direção ao divã, questiona:
- Você sabe o que está acontecendo?
A psicanalista acena com a cabeça e responde: - Claro! Semana passada percebi que isso estava prestes acontecer. E aconteceu! Senta aí que você vai entender tudo, afinal, agora você está acordada!
Comentários
Postar um comentário