Dona de Mim
Clarice quer continuar dormindo. Dormindo não pensa. Quando não pensa não dói.
Mas lá estava ele, o despertaDor para lembra-la que a vida não dá pausa pra gente se curar e só depois de tudo resolvido prosseguir. A vida já estava acontecendo e ela tem que levantar.
Então, levanta.
Abre a torneira, junta as mãos em forma de concha, e deixa a água gelada despertar a alma. Respira fundo e confronta o reflexo no espelho. É difícil se encarar e não se reconhecer, não se compreender. Não saber como chegou até esse lugar, onde é uma completa estranha para si.
Todo esse sentir depois de tantos anos entorpecida. São tantos desejos que não consegue denominá-los. Os pensamentos são tão rápidos quanto os batimentos do coração que sempre está descompassado, como quem corre em direção a linha de chegada, mas a chegada nunca chega. E isso cansa. Mas ela não desanima. Sabe tudo que percorreu para finalmente estar acordada para a vida, por isso, já tem algum tempo que desistiu de desistir.
No entanto, a jornada é dolorosa, é difícil se perdoar por ter passado toda vida realizando os desejos alheios e agora não saber como atender aos seus próprios. Mas um aprendizado foi adquirido durante o processo, ser gentil com ela mesma.
Afinal, foi muito tempo se odiando, então não saber como reagir diante de todo esse amor próprio recém adquirido, é normal.
Mas é difícil não saber quais são as atitudes certas, não confiar em seu instinto que por anos foi negligenciado, e agora diante de tantas possibilidades não saber o que fazer, como um pássaro livre que não sabe voar, permanece na gaiola mesmo com a porta aberta lhe convidado a partir.
É que Clarice sempre foi pelo caminho que mandavam, e agora é estranho para ela ter a liberdade de ir sozinha onde deseja. Então fica parada diante da porta como quem espera uma voz apontar para onde ir. A voz até continua falando, mas Clarice não ouve mais as orientações, porque o que a voz diz, é o desejo de outros e não os dela. E agora, Clarice quer ir para onde lhe faz feliz.
Por um momento o reflexo lhe aconselha, decifra o teu desejo ou ele vai te devorar.
E por mais que isso lhe assuste, Clarice sabe que é verdade. Isso já tinha acontecido na sua família, mulheres cujo o desejo não atendido foi sufocando até que elas se tornaram zumbis. Andavam, comiam, até riam, mas não viviam. E por muito pouco isso não aconteceu com Clarice. Ela sabe que teve sorte e que não pode desperdiçar essa oportunidade, então vai, passo a passo em direção aos seus desejos.
O estranho é que a liberdade não lhe dá medo. Mas ainda assim não consegue sair, por mais que saiba que dessa vez ser livre depende dela e de mais ninguém. Só que existe um medo, o de decepcionar aqueles que ela vai deixar ao partir, medo de fazer o outro infeliz por ela decidir ser feliz, isso lhe paralisa, afinal não está acostumada a priorizar sua felicidade.
Mas tem uma coisa, Clarice não é medrosa, sabe que a sua vocação é ser corajosa, jamais covarde e muito menos, aprisionada. Permanecer presa ainda que seja uma opção, não é a sua escolha.
Clarice respira fundo e olha para fora em busca de algo que lhe dê certeza que pode sair, então ao espiar o mundo, contempla dezenas de Clarices a sua espera, com flores e velas, as flores para enfeitar a vida e a vela para iluminar o caminho. Clarice corre em direção a elas, que seguem livres, de braços dados, cantando “Deixo a minha fé guiar, sei que um dia chego lá, porque Deus me fez assim, dona de mim!”
Clarice Magalhães
Fez-se Dona de océ, Clarice!
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