Carta Confessional a Clarice

 Rio de janeiro, 4 de setembro de 2021.

 

Querida Clarice, venho lhe escrever em resposta a sua última carta. Talvez esteja vendo em mim algo que não sou. Aproveito para lhe avisar que depois desta carta todas as suas expectativas serão duramente quebradas e talvez nunca mais me olhe do mesmo jeito. Como eu disse, não sou como você me descreve. Na verdade, tenho sido apenas metade de mim há alguns anos. Quando lhe conheci, no entanto, não tinha a percepção de hoje, mas já sentia que não era como você. Você, uma mulher incrível, corajosa, que fala dos seus medos e inseguranças e consegue se despir sem tirar as roupas, apenas com as palavras. Eu, por outro lado, me escondo por trás delas, das palavras e das roupas.

 A palavra “mulher” sempre foi alvo do meu desejo, mas nunca uma casa onde me sinto confortável. Poderia dizer que me soa mais como uma prisão. Não me reconheço nela e acho que nunca me reconheci. Lembra quando eu lhe dizia: “Vocês mulheres são tão complicadas...”? Pois é... eu não me incluía e não era  por não ser complicada, mas porque não me via como mulher. Os seios lhes caem bem melhor do que em mim, mas aprendia conviver com eles.

Desde pequena eu escondia alguns hábitos e brincadeiras. Eu me sentia extremamente envergonhada quando me pegavam no flagra. Lembro-me de uma vez me esconder literalmente dentro do armário, porque minha irmã havia contado para minha mãe o que eu estava fazendo. Acho que desde então nunca sai completamente de lá. Não tem a ver apenas com sexualidade, tem a ver como o mundo se organizou em apenas duas possibilidades de ser e eu simplesmente não me encaixo nelas.

Eu nunca entendi porque roupas têm gêneros.... afinal, é um pedaço de pano, mas eu nunca pude falar isso em voz alta em público. Eu só gostaria de poder usar o que eu quiser, quando eu quiser sem me preocupar com gênero ou com qualquer olhar reprovador. Na formatura da minha faculdade, eu pensei como seria bom poder usar um terninho em vez de vestido e salto alto. Já fui convidada para alguns casamentos de amigos inclusive para ser madrinha, mas arrumei uma desculpa, que no fundo não era mentira, e não fui. Mas a verdade é que não queria ter que me montar em um vestido e salto alto.

Como pode ver, não sou quem imagina.  Não sou corajosa como você disse, apenas me conformei em aceitar que não posso mudar o que sou, tampouco a sociedade onde vivo. Meus discursos não passam de pura hipocrisia, porque tento incentivar as pessoas a terem a coragem que nunca tive. Eu também não me sentia confortável em meus relacionamentos, exceto o último. Ela me fez olhar para mim e me entregar e, naquele momento, eu senti o que é estar na minha pele sem rótulos e me permitindo sentir, fazer e demonstrar o que sinto. Eu nunca me esqueci do que ela me disse: “olha para você, você é linda assim nua”. A nudez a qual se referia era a da alma. Ela queria que eu me percebesse sem vergonha ou pudor. Foi a primeira vez na vida que me senti verdadeira e livre. Uma pena não ter dado certo... mas acho que no fundo ela dizia para eu fazer algo que ela mesma não fazia: se entregar. Todos nós somos hipócritas em algum momento. Ela decidiu seguir a vida dela sem assumir o que sente, ou talvez, nunca tenha sentido de verdade. Em algum momento, ela se fechou e eu cansei de tentar entende-la.

A essa altura, depois de tudo que confessei, talvez meus olhos não lhe encarem por um tempo. Talvez eu tenha finalmente conseguido me despir em palavras, mas me sinto mais vulnerável do que nunca, porque parte de mim agora está em suas mãos. Neste momento, eu não espero que me responda, mas, se o fizer que seja por desejo seu, sem obrigação de dizer o que acha politicamente correto ou para me agradar. Quero mais do que nunca que seja você e que eu possa ser eu.  


Sua eterna amiga.

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