OS INCÔMODOS NUMA CASA CLARICE

(...)A parte sem o todo não é parte.

E o todo sem a parte não é todo(...).

Gregório de Matos


   Cada dia uma parte, um pedaço, um conto fazem sentir-me sem teto, sem proteção e mais forte. Não há janelas nem portas, apenas o céu, a terra e eu: uma mulher conspirando ser, sentir e viver. Paredes não importam aprendi a escalá-las; o horizonte é uma marca para ser transpassada, como uma saia transparente embalando-me, para abrir as asas e ser borboleta.
   Leio a sorte nas nuvens, em suas deformidades inconstantes, porque o vento, seu escultor, não as consegue possuir. Assim, elas revelam a impermanência do fluxo e, em segundos, a epifania de um sorriso discreto, diante da transformação da escrita, que no azul celeste inferniza a mesmice.
   Meus braços se abrem em páginas e a liberdade engole tudo o que sou. Cuspida em chuva, renasço nos campos salomônicos em outros eus que florescem lírios-cactos. Há um perfume que espeta pétalas, indicando um novo caminho pra casa.
   Abro a porta e meu espelho é uma estante de asas, aninhando as palavras que fogem espremidas dos livros fechados e encontram, saindo de mim, ideias que as absorvem e constroem barulhos em meus silêncios, escritos em dizeres, que de cômodo à incômodo constroem um lar em mim.


Claudisse...

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