Sendo Ser
Querida Clarice,
Li a carta que você escreveu para sua amiga Olga e me emocionei demais.
Sua sinceridade em falar das suas fragilidades é algo tão raro, que por um momento causa estranheza para muitos, mas não para mim, que assim como você, se compreende gente através das fragilidades, o que poderiam qualificar como defeitos e imperfeições, é simplesmente o que nos torna humanas.
E aí surge a grande questão, por que as pessoas não se aceitam, Clarice?
Eu deveria saber essa resposta, uma vez que, por muito tempo não me aceitei. Não aceitava quem eu era e isso sim é estranho. Não aceitar a minha natureza, o meu DNA e quem me tornei a partir das experiências que vivi.
Comecei a mudar quando aceitei que sou humana e a beleza está nisso. Na fragilidade, nas incertezas, nos medos, nas dores e nos prazeres. Sou ansiosa por não saber o que fazer com esse tanto sentir que nos tempos atuais (ou será que sempre foi assim?), o sentir é visto como vulnerabilidade. Eis uma coisa que ainda preciso saber lidar... eu sou. Estou viva e tudo que sou faz parte dessa existência e de como vejo a vida.
Amo as pessoas. Amo mesmo. Amo suas complexidades, toda essa confusão que o viver causa na gente. E não sei passar imune diante de uma pessoa. Sinto suas dores, suas dúvidas, os desejos, que muitas vezes causam constrangimento e vergonha. Ah, minha querida, se elas pudessem ver que a beleza está exatamente no ser, no sentir, no se entregar.
Desde que me entreguei mergulho mais fundo em mim e na minha humanidade e isso é libertador. Mergulho, voo, transbordo...
O vinho me acalma, o cigarro me permite descompassar o coração porque é quando paro para respirar (que ironia!), a erva me tira a dor, o sexo me faz sentir ainda mais viva, o escrever me liberta. E ainda assim, tudo isso vira tabu, porque as pessoas parecem não saber lidar com o que faz bem para o outro, criaram uma lista de certo e errado e assim criou-se uma referência do que devemos ou não fazer. E quando fazemos o que nos traz bem estar, somos julgados cruelmente, e todos aqueles que se preocupam tanto com o bem, nos fazem mal, muito mal.
E se somos julgadas apenas por sermos quem somos, quando erramos então, aí que o tribunal de "perfeitos" se apresenta, como se jamais tivessem errado.
Dizem tanto que errar é humano. Mas sempre que erramos somos julgados com uma severidade desumana. Aí somos humilhados, desprezados, bloqueados e invisibilizados, como se o erro fosse algo extremamente improvável de se cometer, quando na verdade, somos todos aprendizes no viver.
E muitas vezes esse errar é só parte do processo de aprendizagem.
Gosto de gente, Clarice, gosto de elogia-las, de fazê-las gozar, de mostra-las que são gostosas, bonitas e interessantes, ainda que não se vejam dessa forma. E por isso, sou vista como louca, descompensada, imatura e até mesmo, perigosa.
E se você está se questionando onde está o problema, eu posso te dizer. As pessoas querem ser amadas, mas não conseguem se deixar amar. Paradoxal, não é mesmo? Vivem em busca de grandes paixões e quando surgem, elas fogem, fazem joguinhos emocionais, mostram desinteresse para parecerem interessantes. Como conseguem?
Eu não consigo. Certeza que você também não. Joguinhos não são a nossa praia, não é mesmo? Nosso jogo é apenas o das palavras.
Sentimos e logo falamos. Nos expomos e daí vem a nossa maior fragilidade. A exposição da nossa alma. Acham bonito quando essa entrega vem em um poema, numa canção, quando é um romance no cinema ou na novela. Mas o interesse desaparece quando surge na vida real, toda essa entrega assusta.
Eu queria sair gritando aos quatro ventos, permitam-se! Permitam-se sentir, ser... permitam-se viver uma vida que valha a pena viver! Parem de exigir perfeição, parem de buscar aceitação no outro. Parem de se diminuir para caber onde não é o seu lugar e principalmente, parem de não querer sentir. Sentir é parte de ser.
Quero convida-las para viverem a vida real. Chega de filtro, de sorrisos falsos para ganhar likes. Elas estão presas, Clarice. Mas a grande questão é, será que essa prisão está trancada ou a tempos a porta foi destrancada e elas permanecem presas por não tentarem a liberdade? Não ousam dar um passo para fora desse lugar em que estão infelizes. Quero estender as mãos e guiá-las por esse caminho bonito da autoaceitação. Quero dizer, esse limite é emocional, não existe fisicamente, venha! O que te impede de ser livre?
Todos os dias me faço essa pergunta. Porque sim, minha amiga, as vezes me vejo presa também, tenho consciência de algumas coisas que preciso mudar e essa mudança é interna, porque ainda tenho o vício de em determinados momentos, me pautar pelas crenças limitadoras em que fui construída, no entanto, a boa notícia é que não tenho mais medo de me descontruir, quantas vezes for necessário, para que eu possa ser realmente livre para aproveitar essa jornada linda que é a vida. E essa é a chave para sair dessa prisão, Clarice. Compreender que a vida é linda apesar das dores, dos medos, das fragilidades. A vida é uma jornada única em que passamos muito tempo nos distraindo com o que não importa e deixando de ver o que realmente importa, que é sermos plenas e felizes apesar de tudo....
Prossigo, Clarice, com orgulho das minhas fragilidades e de quem sou. No dia em que todes compreenderem isso, o mundo será um lugar bem melhor para se viver, porque como disse o poeta "desprezo a si mesmo, causa dor no outro também", tem muita gente fazendo mal pro outro, porque ainda não se libertou. Que sejamos todes livres para voar e viver!
Com amor imenso,
Sua amiga,
Clarice
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