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Mostrando postagens de agosto, 2021

sopro

Vestida de vento. Senhora dos pensamentos. Dona das minhas querências. Só levo o que aguento. Desejos feitos a fermento. Descascados de aparências. Claricisses que invento. Apagam tormentos, Culpas e dependências. Abraço bem lento todos os livramentos em versos-essências.

A Cor Dada

Ella, em sobressalto desperta.  O coração bate tão forte que é possível ver a blusa do pijama pulsar.  Com a respiração ofegante permanece deitada olhando para o teto. Tentando recuperar o fôlego acende a luz do quarto silencioso, paredes cinzas, decoração sofisticada, percorre cada centímetro do lugar que mais parece uma caixa fechada e fria, o relógio da parede marca 12:12, a cortina da  janela não permite ver se é noite ou dia. Ella procura o celular que está debaixo do travesseiro, estranhamente no aparelho a hora está diferente do relógio, 8:18 e nada faz sentido, a data 11/11/2015. Atordoada, Ella fica em pé, mas precisa sentar-se novamente porque está tonta e as pernas trêmulas. Sentada na beirada da cama, estica o braço e alcança o controle da televisão que está em cima do móvel de madeira de carvalho, a fisionomia atordoada dela se confunde com a do repórter que em meio a um protesto entrevista uma mulher segurando um cartaz com a frase “Seu machismo me mata” e a...

Carta para Clarice

25 de agosto de 2021 Clarice, meu bem! Faz muito tempo que não lhe escrevo, e parte de quem eu era já não posso te dizer que ainda existe em mim. Posso dizer que existe uma vaga lembrança, como uma espuma das ondas, quando o mar  toca a areia pela primeira vez, ou seria pela última vez? Não sei ao certo! Me defino hoje com algo diferente daquilo que você conheceu, só você me vendo novamente poderá perceber, ou melhor só você me enxergando novamente, poderá perceber. Mas bem sagaz como você é, tenho certeza que poderá me enxergar por completo através desses singelos versos que, eu muito ousada que sou, decidi te escrever. Antes mesmo de receber sua carta, sigo os dias em busca dos meus defeitos mais sinceros, com a cara lavada e a alma rasgada, gosto de escancarar as imperfeições aos olhos do outro, que me fazem ser tão eu. E na solitude de não querer agradar ninguém me sinto tão a vontade em ser verdadeiramente eu. A ideia de me moldar ao outro, você meu bem, sabe bem, que nunca fo...

me despeço

me sinto livre quando não me pertenço. me sinto livre quando não me obrigo a ser melhor. me sinto livre quando não me obrigo a estar bem. me sinto livre quando me sinto em dor. me sinto livre quando me despeço de mim. me sinto livre no meu fim. Com afeto, Clarice.

liberdade

Dentro da minha liberdade não cabe a palavra dona. Dona me transforma em posse. Quero ser livre ao ponto de não me pertencer, de a nada pertencer. Quero ser livre dessa tal felicidade. Quero ser livre pra poder me afogar na tristeza. Me embriagar na melancolia da busca incessante da saudade daquilo que não vivi. Quero ser livre pra sofrer até o fim. Quero ser livre pra escolher mergulhar no raso. Livre para me afogar no vale das lágrimas e ficar perdida nas sombras do passado. Me deixem livre para sofrer. Com afeto, Clarice.

a dor

a ausência da cura corrói os lampejos de paz que havia ali. parada. estática. desolada. duvida se há alma nessa vida. busca alma em meio ao caos e a ruína. a penumbra do silêncio em meio ao amontado de corpos, sem rostos, numa busca incansável de tranquilidade. a escuridão invade a neblina e ela cai. e encontra acalento na ausência do que não é mais. fingindo viver onde não se encontra mais.

Clara no nome, Clarice na cara!

Clara seguia numa via mal iluminada de subúrbio, dessas que o cansaço encontra no final de um dia de trabalho, até que os faróis baixos de um carro a encontrou, acuada ela foi caminhando de costas pra um muro de espinhos, mas o inesperado aconteceu: uma mulher que dirigia o carro saiu chorando, veio ao encontro dela e a abraçou. O que fazer com alguém chorando em seus braços numa rua a meia luz?? Ela correspondeu ao abraço desesperado e confortou aquela desconhecida com um silêncio que tomou conta de todo espaço, porque aquela irmã em sua direção afagou todo o sentido no calo daquele encontro. Após enxugar as lágrimas sem dizer nada, Clara buscou uma pequena lanterna e iluminou o rosto da outra face, a estranha com os olhos brilhantes a olhou e disse:   _ Clara na cara, Clarice no nome, esboçando um tímido sorriso.    Afirmando a mão na lanterna, respondeu:   _ Olá! Meu nome é Clara, soltando uma gargalhada tensa.   Não houve senão olhares que se aprofundaram in...

Dona de Mim

Clarice quer continuar dormindo. Dormindo não pensa. Quando não pensa não dói. Mas lá estava ele, o despertaDor para lembra-la que a vida não dá pausa pra gente se curar e só depois de tudo resolvido prosseguir. A vida já estava acontecendo e ela tem que levantar. Então, levanta. Abre a torneira, junta as mãos em forma de concha, e deixa a água gelada despertar a alma. Respira fundo e confronta o reflexo no espelho. É difícil se encarar e não se reconhecer, não se compreender. Não saber como chegou até esse lugar, onde é uma completa estranha para si. Todo esse sentir depois de tantos anos entorpecida. São tantos desejos que não consegue denominá-los. Os pensamentos são tão rápidos quanto os batimentos do coração que sempre está descompassado, como quem corre em direção a linha de chegada, mas a chegada nunca chega. E isso cansa. Mas ela não desanima. Sabe tudo que percorreu para finalmente estar acordada para a vida, por isso, já tem algum tempo que desistiu de desistir. No enta...

Liberdade no peito

Eu só posso falar por mim, mas nunca gostei de usar sutiã, e gostaria de bani-lo. Atualmente passo o dia inteiro sem essa peça, e sabe o que é isso? A liberdade que representa? Sempre me incomodou e só o uso por obrigação, pois assim como não o quero, também não consigo me desfazer do dito cujo. Não me sinto à vontade respeitando a minha vontade, irónico, não? Ou pelo menos ridículo, usar algo que é extremamente insuportável para você porque assim é como deve ser, e por outro lado não o arrancar e jogá-lo na lata de lixo porque como assim é como deve ser, você se sente desconfortável sem ele. É um ciclo de luta interna constante entre sentir-me incomoda fisicamente, porém eles estarão camuflados e serão aceitos ou sentir-me incomoda mentalmente porque eles se farão presente e serão julgados (sendo que em ambos casos eles permanecem intactos no mesmo lugar, como eu disse, é um absurdo).  Mas ser mulher é (ou era (espero!), ou querem que seja) uma longa lista de esconder mostrando,...

Um Sopro de Vida

"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.  Viver é uma espécie de loucura que a morte faz... De repente as coisas não precisam mais fazer sen­tido. Satisfaço-me em ser. Tu és? Tenho certeza que sim. O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência. De certo tudo deve estar sendo o que é... Que a paz esteja entre nós, entre vós e entre mim. Estou caindo no discurso? que me perdoem os fiéis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar." Clarice Lispector